"Eu Não Preciso de Gênero" por Tyler Ford


Vocês já ouviram falar sobre Tyler Ford? Tyler é agênero, ou seja, não se identifica nem com o gênero feminino ou com o gênero masculino. E aparentemente, não sente a menor necessidade de se identificar com nada, desde que saiba quem verdadeiramente é. Tyler tem 25 anos, canta, escreve e é uma personalidade da mídia que luta há algum tempo pela causa LGBT. É amigx de estrelas como Ariana Grande e Miley Cyrus e participou da segunda temporada do reality show (que eu adorava) The Glee Project. Com discursos de incentivo e auto aceitação, Tyler fez seu caminho pela mídia pregando o amor próprio e a liberdade de ser quem realmente é, ganhou prêmios por suas iniciativas e até criou uma linha de roupas, My Friend Tyler, que trazem as mensagens na qual acredita. 

O motivo pelo qual estou explicando tudo isso? Bom, sigo Tyler há um certo tempo no twitter e conhecia algumas de suas iniciativas, mas só há alguns dias tive o prazer de encontrar o link para um texto belíssimo de sua autoria, "I Do Not Need Gender". Na hora eu decidi que aquelas palavras precisavam ser compartilhadas e até falei no twitter sobre isso, porém, ao procurar a tradução do texto para mandar para uma amiga, descobri que ninguém ainda havia passado para o português. Foi então que tomei esse dever para mim mesma. Tentem ler o texto com a mente aberta e mesmo quem não concorda, tentem tirar uma mensagem positiva disso daqui. Já me desculpo antecipadamente por possíveis erros, tentei ao máximo passar a mensagem exata, gastei algumas boas horas nisso, porém, diferente do inglês, a maioria dos adjetivos da língua portuguesa são diferenciados por gênero. Isso dito, espero que gostem:

"Eu Não Preciso de Gênero" por Tyler Ford 


"Quando criança, existiam duas coisas que eu desejava toda noite antes de dormir: aparelho (eu era estranhamente obcecadx por ortodontia) e genitais diferentes. Eu não tinha muito entendimento sobre gênero, mas eu sabia que a palavra "garota" era tão desconfortável para mim quanto as saias que eu me recusava a usar. Com três anos, eu insistia que meu corpo não era meu e não era o que eu precisava. O que tinha "lá embaixo" parecia errado para mim de maneiras que eu não conseguia explicar, mas eu sabia que existiam pessoas lá fora com genitais diferentes das que eu tinha, e eu pensei que pudesse querer uma dessas. Todos me chamavam de tomboy; eu deixava só porque "boy" fazia parte de metade da palavra.

Ainda assim, enquanto eu crescia desejava experienciar a mocidade. Eu queria me encaixar, eu queria ter uma vida adolescente normal como via nos filmes, e eu queria ser vistx e validadx pelos meus iguais. Mais do que tudo, eu queria crescer e virar uma mulher, porque eu amava as mulheres na minha vida e queria me identificar com elas. Meu desejo de existir como um garoto e minha inabilidade de me sentir como uma garota me puxavam em uma direção, e o meu desejo de me submeter ao que os outros chamavam de "realidade" – aparentemente o único caminho para a normalidade – me puxou na direção oposta. Às vezes eu me sentia um chiclete – de um sabor realmente horrível – sendo esticadx até que eu não conseguisse mais me reconhecer. 

A maior parte da minha vida eu passei indo para lá e para cá como um pêndulo, tentando descobrir em qual lado – garoto ou garota – eu inevitavelmente pararia. Passei anos desesperadx por sentir qualquer senso de estabilidade, por sentir qualquer tipo de ligação forte com um desses dois gêneros, por sentir que eu pertencia a algum lugar. Eu passei um ano usando sutiãs e minissaias e o ano seguinte me injetando com 200mg de testosterona por semana. Eu poderia alterar o meu corpo, usar roupas diferentes, mudar meus maneirismos e meu discurso, e nada disso teria mudado o meu coração confuso, que vibrava fora de controle toda vez que eu tentava me prender a algum gênero e tentava me comportar como tal. Ao longo da minha vida (e constantemente agora), as pessoas tem me lido entre masculino e feminino. Eu não estou entre nada além dos confins do gênero binário Ocidental. 

Na maior parte do tempo, eu gosto de ignorar completamente que meu corpo existe de fato. Eu sou um cérebro ambulante; eu sou uma galáxia de estrelas; eu sou incapaz de ser contido ou definido por algo tão limitado. Meus pronomes (ele/eles) são um grito de guerra contra ser rotulado sem meu consentimento, e um maneira pela qual eu abraço o que eu sou e o que eu não sou também. Eu não preciso me encaixar ou pertencer a uma identidade para existir, para sobreviver, para fazer outras pessoas se sentirem confortáveis. Eu preciso de espaço e eu preciso de liberdade; eu preciso de compaixão e preciso de gentileza; eu preciso de abertura e eu preciso de compreensão; eu preciso de amor próprio. Eu não preciso de gênero."


Todos os créditos desse texto vão para Tyler Ford e vocês podem encontrá-lx em suas redes sociais: site oficial, twitter, instagram, youtube. E, para quem quiser e manjar do inglês e quiser conferir, aqui está o texto na íntegra. Espero que tenham gostado, qualquer sugestão, correção ou até pontos para discussão (civilizada) podem ser deixados aqui em baixo.

Até o próximo post, meus caros obstreladores, xoxo.

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12 comentários

  1. Conheci um pouco da história do Tyler por causa da ligação dele com a Miley, mas acabei não procurando mais coisas sobre ele por falta de tempo na época. Se você não tivesse publicado esse texto no blog eu dificilmente o encontraria... E, sério, que texto sensacional. Não costumo ser muito emotiva, mas esse texto mexeu comigo. Eu acredito muito que as pessoas precisam ter liberdade para ser o que elas desejam, mas ainda ouço tantas piadas sobre isso, principalmente morando em uma cidade tão pequena (pequena não só de tamanho, mas como de mentalidade). Se ao menos as pessoas pudessem ler o que está escrito sem pré-julgamentos. Enfim, obrigada por traduzir e trazer o texto para o blog. Beijos! <3

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    1. Li! É sempre muito bom mesmo ter você por aqui. E sim, esse texto também mexeu comigo de um jeito muito sério, não é à toa que coloquei ele aqui e tentei divulgar para o máximo de pessoas possível, é tão importante! As pessoas precisam mesmo abrir suas mentes e acho até que isso já está acontecendo, bem lentamente, mas pelo menos agora temos mais espaço para darmos a louca e sermos mais autênticos com nós mesmo.
      E eu que agradeço pela sua visita, beijos <3

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  2. Que texto maravilhoso, hoje em dia a liberdade do ser está ganhando voz e aceitação. Hoje em dia ainda existe muito preconceito sobre o tema, entretanto, é 'menor' que algumas décadas atrás. Eu não conhecia Tyler, vou procurar saber mais.
    beijos
    lolamantovani.blogspot.com.br
    p.s:adorei a linguagem neutra

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    1. Que bom que está, não é mesmo?! O preconceito ainda vai existir por um bom tempo, mas pelo menos agora acho que a abertura está sendo maior para tratar sobre esses tipos de temas. Tyler é uma pessoa incrível e fico muito feliz que fui a responsável por apresentá-los, haha!
      Obrigada pela visita, beijos!

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  3. Nossa, nao conhecia a historia dele mas parece ser algo bem forte pelo que eu li parece que é algo como um desabafo para o mundo.

    www.descrevendonuvens.com

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    1. Sim, é um história de bastante superação e auto-descobrimento, gostaria que o mundo inteiro pudesse ler e sentir esse desabafo haha

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  4. Eu ainda não conhecia a história Tyler Ford. Mas além de ser um revolucionário do mundo LGBT, o cara é um gênio! Vou levar essa frase para a vida: eu sou uma galáxia de estrelas.
    Fico muito grata por você ter traduzido esse texto maravilhoso para nós, Elouise. Não é qualquer pessoa que faria isso e que conseguiria ler em inglês. As pessoas precisam conhecer um pouco mais sobre a liberdade de ser quem é, sem julgamentos.
    Já estou te seguindo no twitter para saber mais sobre tudo e claro, pra ficarmos mais próximas :)

    xoxo
    Fora do Contexto

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    1. Elx realmente é alguém para se inspirar. E essa foi também uma das minhas frases favoritas!!! Eu que sou grata pela visita e pela compreensão. As pessoas precisam mesmo não só conhecer, mas respeitar também e isso vai melhorando um espirito revolucionário de cada vez haha
      Te segui de volta lá, vamos manter contato <3

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  5. Oi, oi Elouise!
    Deus do céu, que lindesx <3
    Eu realmente não conhecia Tyler nem o trabalho delx, mas estou apaixonada pela causa, poder ser quem é sem julgamento, ser livre! Adorei saber, seu post foi bem esclarecedor <3
    Beijos!
    Borboletas de Papel | Fanpage

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    1. Oi, Aline! Que bom que gostou e esclareceu qualquer dúvida por aqui, fico muito feliz de ter atraído pessoas para a causa haha! A luta contra o julgamento desnecessário e a liberdade de ser você mesmo é algo pelo qual vale tanto a pena lutar e é tão importante. Muito obrigada pela visita, beijos! <3

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  6. Esses dias, sem motivo, eu comecei a falar sobre isso com o meu namorado, eu não entendo como alguém pode não ter gênero, em algum momento a gente vai precisar se referir a pessoa e eu não sei como chama-la, eu falo "meu amigo" ou "minha amiga" eu pensei que: tu pode se identificar com a aparência que quiser, pode ser homem e se vestir de mulher, mas não pode não ter gênero... Eu e meu namorado ficamos falando disso por um tempo, mas desistimos, agora com esse post eu aprendi que eu não preciso entender. Eu não tenho que entender, aceitar, gostar ou deixar de gostar. Eu nunca vou sentir o que a pessoa sente, se ela diz que não tem gênero ela não tem gênero e a gente tem que respeitar isso.
    Eu gostei bastante deste post, abriu minha mente para algo que eu não sabia como entender.
    É uma luta que vai exigir muito esforço, pq se pra mim soou estranho (eu que defendo todas as causas feministas, direitos iguais, luta contra transfobia, eu que odeio quando chamam a travesti de "o" travesti) imagina para o restante da sociedade que nunca se preocupou com isso, mas eu acredito neste conceito! <3

    http://www.pinkisnotrose.com/

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    1. Você não tem ideia do quanto o seu comentário me deixou feliz. É natural essa dificuldade inicial de entender, eu também precisei de um tempo para processar as informações, mas achei ótima e bem bonita a sua atitude de respeitar isso e acho que se existissem mais pessoas como você, a intolerância já teria caído pela metade.
      Muito obrigada pela sua contribuição e comentário, volte sempre <3
      Bjs

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